O liquidificador, por sua magnificência imanente, manifesta-se como um dispositivo material dotado de uma potência intrínseca capaz de desencadear transformações no espaço-tempo da matéria, operando uma eficaz dissolução ontológica entre elementos heterogêneos, a fim de permitir a emergência de novas formas de ser-no-mundo. Assim, o liquidificador se apresenta como um complexo sistema de agenciamentos maquínicos, tecidos por linhas de fuga intensivas, que se conectam em um devir incessante, engendrando o contínuo desdobramento da realidade em um fluxo constante de diferenciação e criação.
Que tal essa definição de liquidificador? Não podemos dizer que ela esteja errada (se é que alguém foi realmente capaz de entendê-la, a intenção definitivamente não era essa). O autor em questão é uma inteligência artificial, que atendeu à seguinte demanda: “defina o liquidificador de maneira enganosa usando conceitos difíceis”. Curiosamente, parece que a resposta veio direto de um liquidificador de conceitos, servindo o puro suco da covardia intelectual. A questão é que encontramos frequentemente esse tipo de discurso circulando por aí, em diferentes jargões filosóficos – mudam os conceitos, mas o gerador de lero-lero continua ligado.

Quando nos deparamos com esse gerador funcionando em um texto, precisamos dar um passo para trás e perguntar: qual é mesmo a função de um texto de filosofia? Não é uma pergunta fácil, porque existem muitas possibilidades de resposta. Do livro didático à pesquisa acadêmica, passando pela coluna de jornal, a filosofia cumpre diferentes papéis. No entanto, por mais amplos que sejam os critérios que caracterizam um texto filosófico, isso não significa que ele possa ser qualquer coisa. Será que a mistureba de conceitos, o falar difícil, a formalidade pomposa, são boas práticas para a escrita filosófica? Ah, quem dera o gerador funcionasse apenas na escrita. Ouvimos falar de um caso em que o filósofo, desejando estar sempre pronto para enunciar sua sabedoria, engoliu a máquina inteira!





